30/09/2026
Existe um erro comum entre empresários brasileiros diante da Reforma Tributária: achar que ela só “vai bater na porta em 2027” e que, até lá, o assunto pode esperar. Essa visão é arriscada. A transição para o novo sistema já começou a exigir decisões, e quem deixar para agir na última hora perceberá tarde demais que faltou tempo para testar, ajustar e corrigir o rumo.
A partir de janeiro de 2027 entra em vigor a CBS, que substitui o PIS e a Cofins. O ICMS e o ISS seguem por uma transição mais longa, com convivência entre o sistema atual e o novo modelo até 2032. Na prática, nenhuma empresa vai “migrar” de um dia para o outro: ela operará por anos dentro de duas lógicas tributárias ao mesmo tempo, e é justamente essa convivência que cria o maior risco de erro.
Um hábito muito comum na gestão de pequenas e médias empresas é acompanhar o quanto se vende sem saber, necessariamente, quanto sobra de cada venda. A Reforma Tributária deixa essa lacuna evidente. Com a mudança na lógica dos créditos, o resultado de uma operação dependerá menos da alíquota isolada e mais de como o negócio inteiro (custo, fornecedor, contrato e preço) se encaixa no novo sistema.
Isso significa que o empresário precisará responder, produto a produto e cliente a cliente: quanto custa, o que está embutido nesse custo e qual é o efeito tributário real daquela operação. Quem olhar apenas para a alíquota deixará passar a parte mais importante da conta.
Um efeito pouco discutido da reforma é o peso que a escolha de fornecedores vai ganhar nas decisões comerciais. Como o novo sistema de créditos tributários favorece quem compra de fornecedores que geram os créditos esperados, as empresas passarão a considerar, além de preço e qualidade, o impacto fiscal de cada relação comercial.
Na prática, isso pode reorganizar cadeias inteiras de fornecimento. Fornecedores despreparados ou fora da nova lógica de créditos correm o risco de perder espaço, não porque o produto piorou, mas porque a conta tributária do cliente mudou. E essa é uma decisão que passa a envolver a área comercial, e não apenas o setor fiscal.
Parte da regulamentação da reforma ainda está em construção, e é tentador esperar que todas as regras estejam fechadas para só então agir. Essa espera tem um custo: reduz o tempo disponível para testar sistemas, treinar equipes e simular cenários antes que as regras valham de verdade. Empresas que atuam em mais de um estado ou município sentem essa pressão ainda mais, pois terão de lidar com particularidades regionais dentro de um sistema também em transição.
O aprendizado de quem já começou a se preparar é consistente: treinar equipes, orientar clientes e rodar simulações antes da entrada em vigor das regras reduz as dificuldades ao longo do caminho.
Não há resposta genérica para essa pergunta. O efeito da reforma varia conforme a atividade, a estrutura da empresa, o uso de créditos e a cadeia de fornecedores de cada negócio. Por isso, a pergunta mais útil não é sobre a alíquota, e sim: eu conheço, de fato, a rentabilidade de cada operação do meu negócio?
O ano de 2027 marca o início da transição, e não o fim dela; o processo segue até 2032, com ajustes pelo caminho. A melhor estratégia para o empresário não é esperar a reforma acontecer para entender seus efeitos, mas fazer essa conta agora, enquanto ainda há tempo de corrigir o rumo.
As orientações são de Elvira de Carvalho, advogada tributária e assistente da diretoria da King Contabilidade, Cristiane Almeida, gerente do Departamento Contábil, e Cida Andrade, gerente do Departamento Fiscal da mesma empresa.
Fonte: Com informações de Contábeis
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